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Da hierarquia ao sistema nervoso: redes de humanos e AI Agents como novo modo de operar
Estamos vivendo uma transição silenciosa, mas profunda. Se a primeira onda da Inteligência Artificial nos negócios foi sobre “pessoas usando IA” para aumentar sua produtividade, a nova fronteira é “organizações usando IA” de ponta a ponta. A metáfora muda: deixamos de pensar em colaboradores isolados que acionam ferramentas inteligentes e passamos a imaginar uma rede de agentes de IA que compartilham memória, raciocinam em conjunto, acionam ferramentas digitais e operam fluxos completos de negócio sem intervenção constante. Não se trata mais de colocar uma “camada digital” sobre processos humanos, mas de repensar a própria lógica organizacional.
Para o setor financeiro, esse movimento não é estético, mas estrutural. Escala, consistência e rastreabilidade são pilares essenciais para bancos, fintechs e seguradoras. AI Agents orquestrados permitem aumentar throughput sem inflar headcount, reduzindo erros e preservando controle — uma condição básica para competir em um mercado em que margens, compliance e velocidade de decisão fazem toda a diferença.
Do organograma à rede: do comando-e-controle à adaptatividade orquestrada
O modelo hierárquico não é um vilão — ele nasceu para maximizar eficiência, padronização e controle em contextos de maior certeza. Em ambientes estáveis, com baixa variabilidade e processos bem definidos, comando e controle reduzem ambiguidade, preservam compliance e entregam escala com previsibilidade. Essa “espinha dorsal” segue essencial para custodiar riscos, responsabilidades e governança.
O ponto é que o contexto competitivo mudou. Num mundo de inovação contínua, ciclos curtos e incerteza alta, a vantagem competitiva deixa de ser a previsibilidade e passa a ser a velocidade de aprender e adaptar. A estrutura que prioriza “eficiência estática” tende a travar quando a variabilidade do mercado aumenta. Precisamos de uma arquitetura organizacional que otimize tempo de percepção, decisão e ação, que tolere experimentação em paralelo e que mantenha coerência global mesmo com muitos graus de liberdade locais.
É aqui que entra o paradigma da rede — um “sistema nervoso” organizacional viabilizado por tecnologias digitais de nova geração:
Nós especializados, como “neurônios”, formados por humanos empoderados por agentes de Inteligência Artificial que percebem sinais, raciocinam e executam micro decisões em seus domínios, sem esperar por escalonamentos desnecessários.
Fluxo de informação em tempo real como “neurotransmissores” que conectam áreas antes estanques, permitindo coordenação fina entre originação, análise, operações e atendimento.
Memória compartilhada como o “hipocampo” corporativo, garantindo que aprendizados locais virem ativos globais reutilizáveis.
Orquestração e políticas como “córtex executivo”, assegurando que a autonomia distribuída permaneça alinhada a objetivos, limites de risco e compliance.
Essa rede não substitui o esqueleto; ela o complementa. A metáfora útil é: espinha dorsal para estabilidade institucional; sistema nervoso para adaptação contínua. Na prática, isso implica um redesenho organizacional com novos paradigmas:
1. Da função ao fluxo – a unidade de desenho deixa de ser apenas “departamento” e passa a ser cadeias ponta-a-ponta, nas quais agentes colaborativos de IA assumem etapas operacionais e decisórias, com humanos focados em exceções, desenho de políticas e melhoria contínua.
2. Da supervisão ex-ante ao controle por resultados – menos checklist prescritivo e mais metas, restrições e níveis de serviços como direcionadores em tempo real. A rede opera com telemetria contínua, explicabilidade e auditoria nativas, permitindo corrigir desvios quase em real time sem paralisar o fluxo.
3. Da eficiência local à eficácia sistêmica – o objetivo deixa de ser otimizar cada silozinho e passa a maximizar resultado organizacional e qualidade de ponta a ponta. Agentes possuem objetivos locais subordinados a métricas globais (tempo de ciclo, NPS, perda esperada, custo de risco), evitando “ganhos” que criem gargalos adiante.
4. Da rigidez à plasticidade – a arquitetura assume flexibilidade (onde troca-se um agente ou um profissional sem a necessidade de reescrever sistemas e processos), aprendizado contínuo (modelos afinados por feedback de negócio) e resiliência (falhas isoladas não derrubam o todo). Em cenários voláteis, isso é o que separa parar de operar de continuar aprendendo enquanto opera.
A proposta do Agentic AI no mundo de finanças
O potencial do Agentic AI não está em automatizar tarefas isoladas, mas em costurar fluxos ponta-a-ponta com consistência. No setor financeiro, isso significa transformar processos fragmentados em jornadas contínuas, onde agentes digitais e humanos trabalham em conjunto.
A lógica é simples: agentes carregam memória para não perder o histórico das interações, acessam ferramentas para executar integrações que antes dependiam de pessoas, aplicam raciocínio para avaliar cenários e alternativas, e trazem conhecimento acumulado de dados e políticas para sustentar decisões. Essa combinação muda a natureza do trabalho.
Em risco, por exemplo, um agente pode acompanhar transações em tempo real, aprendendo com desvios e ajustando limites, enquanto o humano atua quando há ambiguidade ou impacto estratégico. Em operações, a fragmentação entre originação, análise, proposta e onboarding dá lugar a um fluxo contínuo, no qual cada etapa se conecta sem retrabalho. Já na experiência do cliente, os agentes cuidam do que precisa ser invisível — checagens, aprovações, consistência de dados — liberando o humano para o que é essencial: construir confiança, resolver casos complexos e pensar em novas jornadas.
Em um banco, por exemplo, o processo de crédito pode ser reimaginado como um planejador multiagente: um agente coleta os dados do cliente, outro cruza informações de score e histórico, um terceiro estrutura a proposta de condições e prazos, e um último cuida do onboarding e ativação. Cada etapa conversa com a seguinte sem retrabalho ou fricção. O cliente percebe fluidez; a instituição ganha velocidade, rastreabilidade e escala.
Esse não é um movimento de substituição de pessoas, mas de redesenho de papéis. Humanos deixam de ser operadores de tarefas repetitivas para se tornarem arquitetos de fluxos, guardiões de políticas e curadores de aprendizado. A tecnologia não elimina a dimensão humana: ela cria espaço para que ela se concentre no que realmente importa.
Entre promessas e armadilhas
A promessa dos AI Agents é enorme, mas os desafios também são. A primeira armadilha é acreditar que basta somar agentes eficientes para ter uma organização eficiente. Eficiência local não garante eficácia global. Um agente que acelera a coleta de dados pode, se não estiver alinhado, aumentar a carga sobre outro que valida ou interpreta, criando gargalos invisíveis.
Outro ponto crítico é a complexidade crescente. Em tarefas simples e supervisionadas — como checar documentos ou preencher cadastros — os agentes funcionam muito bem. Mas quando entram em atividades não supervisionadas, onde precisam tomar decisões com múltiplas variáveis, há risco de acúmulo de erros de acurácia. Pequenas imprecisões, quando encadeadas em série, podem comprometer um processo inteiro.
No setor financeiro, isso significa desde uma decisão de crédito equivocada até falhas de compliance com impacto regulatório.
Também há o dilema da coordenação: como garantir que agentes autônomos, cada qual com métricas locais, de fato trabalhem para as metas de negócio? Esse é o papel da orquestração — telemetria em tempo real para detectar desvios, acordos claros de desempenho entre agentes (SLAs) e trilhas de auditoria que permitam reconstruir as decisões tomadas. Sem isso, a rede pode virar uma “caixa-preta” difícil de controlar, exatamente o oposto do que o setor financeiro precisa.
Por isso, faz sentido falar em níveis de maturidade. No estágio inicial, agentes atuam de forma assistiva, apoiando humanos em tarefas específicas. Com mais confiança e governança, passa-se para a fase orquestrada, onde fluxos ponta-a-ponta podem ser delegados à rede. Mas é um caminho que exige disciplina, não só entusiasmo: desenhar feedback loops, definir limites claros e manter humanos no papel de arquitetos e supervisores.
O verdadeiro risco não é usar agentes demais, mas usá-los sem coerência sistêmica. A provocação é simples: você quer construir uma coleção de atalhos digitais ou um sistema nervoso organizacional capaz de aprender e se adaptar em escala?
O chamado para uma nova coerência sistêmica
A história das organizações sempre foi escrita a partir de seus modelos de operação. Já fomos comandados por linhas de montagem, organogramas rígidos e sistemas transacionais. Agora, estamos diante de um novo capítulo: redes de humanos e agentes inteligentes que funcionam como um sistema nervoso corporativo.
O setor financeiro, pela sua natureza regulada, intensiva em dados e dependente de confiança, será um dos primeiros a sentir a diferença entre quem apenas experimenta ferramentas e quem redesenha sua forma de operar. Não se trata de moda tecnológica, mas de uma mudança estrutural: a escala não virá de contratar mais pessoas, mas de aprender a orquestrar humanos e agentes em redes adaptativas. O dilema está posto. Organizações que ficarem presas à lógica da eficiência local seguirão enxugando gelo. As que tiverem coragem de redesenhar sua arquitetura para inteligência em rede conquistarão uma vantagem estrutural difícil de ser replicada. O futuro não pertence a quem tiver mais dados ou mais agentes, mas a quem souber transformá-los em um organismo vivo, coerente e capaz de aprender em tempo real.
Sobre o Autor
Alexandre Del Rey
Conselheiro & Founder I2AIConselheiro fundador da I2AI – Associação Internacional de Inteligência Artificial. Também é sócio-fundador da Engrama, sócio da Startup Egronn, e na consultoria Advance e investidor na startup Agrointeli . Tem mais de 20 anos de experiência em multinacionais como Siemens, Eaton e Voith, com vivência em países e culturas tão diversas como Estados Unidos, Alemanha e China.
Palestrante internacional, professor, pesquisador, autor, empreendedor serial, e amante de tecnologia. É apaixonado pelo os temas de Estratégia, Inteligência Competitiva e Inovação.
É Doutor em Gestão da Inovação e Mestre em Redes Bayesianas (abordagem de IA) pela FEA-USP. É pós-graduado em Administração pela FGV e graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp.
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